Conhecer as relações entre design gráfico e a sua aplicação sob uma perspectiva social

Universidade Federal de Goiás ∙ Faculdade de Artes Visuais∙ Trabalho de Conclusão de Curso

Autores: Ary Augusto Ferreira Neto, Ellen Caroline de Jesus Cardoso e Gabriel Antunes Rocha Corá

Orientador: Prof. Dr. Carlos Gustavo Martins Hoelzel

 O projeto 

Trabalho apresentado como Projeto Final do curso de Bacharelado em Design Gráfico pela Universidade Federal de Goiás avaliado com nota 9,8/10 pela banca.

Assimilando o design gráfico como uma profissão com grande potencial de impacto no campo social, esta pesquisa buscou explorar o design inserido inserido no contexto social. Por meio do envolvimento com o trabalho social voluntário na organização “Casa da Criança e do Adolescente - Talitha Kum” em Goiânia, o estudo apresenta o desenvolvimento de uma identidade visual para a instituição valendo-se de uma abordagem centrada no humano e de ferramentas como o design participativo. O projeto explora de que forma o usuário do produto pode se envolver com o processo de criação e se tornar um co-autor. 

Fotos do ambiente no início do projeto - Maio/2018.

A Casa da Criança e do Adolescente Talitha Kum trata-se de uma instituição de caráter beneficente, assistencial e filantrópico gerido por mulheres voluntárias pertencentes à Congregação das Irmãs Passionistas de São Paulo da Cruz. Tem por finalidade acolher crianças e adolescentes do sexo feminino encaminhadas pelo Conselho Tutelar e Juízado da Vara da Infância e Juventude do município de Goiânia e proximidades em proteção social especial de alta complexidade.

 A abordagem 

Design Centrado no Humano

O objetivo primordial do projeto era entender e analisar o design aplicado, na prática, em questões de cunho social. Dessa forma, todo o nosso processo de criação deveria, naturalmente, ser voltado para o ser humano e suas necessidades reais. Fugimos de personas inventadas, usuários ideais ou conceitos teóricos: precisávamos conhecer a fundo nosso público e entender a sua realidade.

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Usamos o Toolkit desenvolvido pela IDEO, projetado especificamente para ONGs e empresas sociais. O kit orienta os usuários através do processo de design centrado no ser humano, e fornece suporte em atividades como a construção de habilidades de escuta, a realização de oficinas e a implementação de ideias.

A metodologia é dividida em 3 etapas: ouvir, criar e implementar.

                             Ouvir   

A primeira fase parte da máxima de que projetar soluções inovadoras e relevantes começa com o entendimento das necessidades apresentadas pelo humano em foco. Sendo assim, trata-se de abordar o público alvo em seu contexto e realidade para entender profundamente sua necessidade.

Fase focada na pesquisa com usuários.

Então, de forma literal, queremos ouvir o nosso usuário: as meninas e diretoras que moram no Talitha Kum. Para tanto, foram feitas visitas semanais ao abrigo por um período de quase 4 meses. Em tais visitas, fizemos uma extensa coleta de dados, um bom registro de relatos e, principalmente, muita observação.

A pesquisa com usuário tem o intuito de conhecer a fundo todas as pessoas que seriam atingidas pelo nosso trabalho. E não somente conhecê-las, mas entender como o design poderia impactar aquele ambiente.

Ferramentas utilizadas:

Photojournal

Com um registro fotográfico do ambiente e dos usuários inseridos em sua rotina, conseguimos vislumbrar com mais fidelidade a realidade do público alvo.

Entrevistas

Clássica e eficaz, a entrevista é uma técnica que permite registrar em detalhes os anseios, receios e sonhos do usuário. 

Tivemos contato com uma série de fragmentos da trajetória das meninas. Tocamos em assuntos como origem, gostos pessoais, aptidões, de que forma colaboram na ordem da casa e o que pensam do futuro. Fomos sempre guiados pelas diretoras da casa, que contaram a história do abrigo e seus próprios relatos pessoais.

 

Com o material coletado, conseguimos determinar com clareza o nosso papel no abrigo e como poderíamos impactar a vida de todos ali por meio do design.

Uma Olha a Outra, registro de Maio/2018

Imersão

Parte fundamental do nosso trabalho. Visitamos semanalmente o abrigo em caráter voluntário para conhecer de perto a realidade das meninas que moram ali.

Resultado:

Por meio da pesquisa, o principal problema identificado no abrigo foi a visão conflituosa e distorcida das meninas em relação ao lugar, não enxergando-o como um lar e sim como uma espécie de prisão que representa nada mais do que abandono e exclusão. Nos propusemos, então, a desenvolver um projeto de visualidades em busca de estabelecer uma conexão entre a identidade do lar com a identidade das garotas que vivem ali. Uma identidade acolhedora. Em um segundo momento, identificamos outra questão que viria a se estabelecer como o segundo objetivo do projeto: trabalhar a comunicação do abrigo com o público externo, isto é, a comunidade. Nosso grande desafio era renovar como a Casa da Criança e do Adolescente - Talitha Kum é vista tanto pelos de dentro como pelos de fora.

                             Criar   

A segunda fase da nossa abordagem consiste em síntese e interpretação dos dados levantados pela pesquisa com usuário. Na fase anterior, identificamos, de uma forma geral, como os traumas e abusos vividos pelas meninas resultavam em um ambiente hostil e desagradável. 

Materializar as necessidades humanas.

Uma vez que entendemos o problema partimos para a fase de ideação conduzindo algumas sessões de brainstorming e atividades em grupo a fim de estimular a criatividade.

Saímos da fase de ideação com dois caminhos para solucionar o problema: uma intervenção no espaço físico do abrigo e o desenvolvimento de uma identidade visual para o lugar.

 Repensando o espaço coletivo 

Para lazer, o abrigo oferece às moradoras uma quadra de esportes. Desde o início ficou bem claro para nós a importância dela para o lugar, pois é onde a maioria das interações sociais positivas ocorrem. Contudo, os muros do espaço eram tomados por desenhos amadores e pichações que geravam um ambiente hostil e muito mal-estar às meninas do Talitha Kum.

Em diversos momentos, as meninas verbalizavam esse incômodo fazendo menção à dualidade emocional que a quadra transmitia: ao mesmo tempo que era um lugar alegre e para diversão, também era um lugar feio e agressivo.

A quadra de esporte do abrigo Talitha Kum está intimamente ligada à qualidade de vida das meninas e, por isso, uma reforma se mostrava, no mínimo, urgente. Com recursos próprios e muito carinho nós repaginamos todo o ambiente contando com a ajuda das 12 meninas que moravam no abrigo naquele tempo. 

Como co-criadoras deste projeto, as garotas tiveram a oportunidade de literalmente iniciar o processo de cobrir manchas do passado para dar lugar a memórias mais bonitas e vivas. Essa atividade foi uma proposta de design participativo em que buscamos transmitir às meninas o poder da expressão artística. Entre uma pincelada e outra, o relacionamento entre equipe e usuário se firmava cada vez mais e o ambiente hostil foi tomado por sorrisos e leveza.

Acima temos o resultado quase final do novo muro da quadra e registros do processo de concepção. O desenho foi desenvolvido pela artista goiana Tatianny Leão, que possui um longo histórico de envolvimento com organizações sem fins lucrativos voltados para a recuperação de menores em situação de abuso.

Deixamos no Talitha Kum cores vibrantes, formas amigáveis e, com certeza, muita alegria. 

 Uma questão de identidade 

O Talitha Kum é um abrigo para crianças que sofreram diversos abusos no núcleo familiar e, como resultado, tiveram suas identidades individuais e auto estimas destruídas. Dessa forma, as meninas chegam à casa extremamente agressivas e desconfiadas, e esse comportamento, muitas vezes, se intensifica em vez de cessar.

Durante a fase de pesquisa, constatamos que esse quadro era reflexo direto da inexistência de conexão das garotas com o lugar que precisavam chamar, de uma hora para a outra, de lar.

Diante disso, surgiu a ideia de criar uma identidade visual para o abrigo em busca de oferecer às abrigadas algo com que pudessem se identificar e estabelecer o sentimento de pertença e acolhimento. Queríamos transmitir a espiritualidade, o sagrado feminino e a delicadeza da juventude. 

Resultado:

Acima o resultado que alcançamos neste projeto. Temos uma marca composta por um símbolo e um logotipo. Atendemos todos os requisitos levantados produzindo uma assinatura leve, juvenil, feminina e espiritual.

O símbolo

Valendo-se da forma de um coração, a configuração final do símbolo assemelha-se a uma flor. O coração traz consigo acolhimento, afeto e amor. As pétalas remetem a asas laterais que carregam a liberdade e a leveza. Por fim, a flor evoca a inocência, delicadeza e a feminilidade. A simetria alcançada pelo símbolo agrega consistência ao projeto e permite que seja reproduzido com facilidade. 

O logotipo

Durante a reforma da quadra, propomos às meninas escreverem seus nomes na parede para deixarem sua própria marca. A proposta desta atividade era trabalhar a autoafirmação e a autoestima, uma vez que o nome está relacionado à sua identidade. Encontramos uma grande resistência e muitas meninas não quiseram deixar seu registro no muro. Apesar de chocante, já esperávamos que isso acontecesse, visto que o senso de individualidade delas foi inteiramente destruído por um pas-

sado de abusos e negligência. Como resultado da atividade, o logotipo criado é baseado na caligrafia das meninas que vivem diariamente a rotina Talitha Kum. Isso contribui para o aspecto jovem da marca e permite uma aproximação muito íntima entre o usuário e a marca. Junto ao símbolo, o logotipo descreve uma mancha gráfica fluida e harmoniosa. Conseguimos um arranjo final leve, delicado e coerente.

               Implementar   

Validar e aplicar as soluções.

Na última etapa da metodologia coloca-se em prática de forma efetiva e viável as soluções planejadas, além da realização do monitoramento do seu impacto. Conduzimos alguns testes por meio de questionários para validar a marca e, em seguida, apresentamos a identidade criada para todos no abrigo.

A marca desenvolvida foi validada pelo cliente sem pedido de alteração algum. As Irmãs dirigentes da Casa demonstraram muita alegria e ficaram maravilhadas com o resultado final. Segundo elas, o objetivo de transmitir e representar tudo que a instituição representa foi alcançado. Além disso, não deixaram de enfatizar a importância da presença do coração, figura que dirige os trabalhos da casa e está presente na própria marca das Irmãs Passionistas de São Paulo da Cruz.

Ir além e estabelecer uma identidade humana

Discutimos habilidosamente acerca do design e o âmbito social. A nossa imersão na realidade do abrigo Talitha Kum nos permitiu expandir nossa visão de design e, principalmente, compreender melhor a dimensão do seu impacto. O designer gráfico, muitas vezes, desconhece o poder que tem para impactar positivamente sua comunidade e nós conseguimos explorar isso.

A Casa da Criança e do Adolescente Talitha Kum ganhou um rosto, uma identificação visual singular, mas, ao mesmo tempo, conceitualmente plural. A Talitha Kum é jovem, feminina, delicada, amorosa, acolhedora, forte e feliz e, a sua marca, também é